O trunfo de Trump no comércio internacional

Trump, que significa "trunfo" em português, é justamente o que o presidente Donald Trump tem nas negociações do comércio internacional. Ele tem o cacife da economia norte-americana, a esperteza de um negociador experiente e está forçando os outros países a aceitarem suas novas regras do jogo.

Ao longo das últimas décadas, vários países negociaram e definiram as regras do comércio internacional, no qual os Estados Unidos tiveram um papel importante, que culminou na criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995. Essas regras deixam o jogo comercial mais previsível e impede que países criem barreiras aleatórias ou discriminem contra determinados países. Apesar de ter se beneficiado imensamente dessas regras, os EUA deixaram de se esforçar nas negociações da atual Rodada de Doha, que se alastra desde 2001, e começou a questionar a relevância da entidade.

Essa questão ia tornar-se bem mais crítica com a vitória do Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016. O empresário de mentalidade e discurso nacionalistas venceu por defender os interesses da sociedade com muita retórica, promessas simplistas, pregando a necessidade de fechar o país para gerar mais empregos e renda para os norte-americanos.

Até março deste ano, ele ainda não havia implementado a maioria de suas promessas eleitorais. Na área do comércio exterior, Trump havia somente cumprido a promessa de, logo ao ser empossado, retirar os EUA do Trans-Pacific Partnership (TPP), o grande acordo entre 12 países com regras avançadas do comércio internacional. Desde então, no entanto, ele tem somente feito ameaças e gerado muita especulação sobre a retirada ou a renegociação de certos acordos comerciais. O raciocínio de Trump é simplista e mercantilista: "não queremos ter déficit comercial com outros países". Era preciso criar barreiras comerciais às importações dos países que mantinham superávit no comércio bilateral.

Essa lógica rudimentar parece fazer sentido para aqueles que entendem pouco sobre comércio internacional, tanto que boa parte dos simpatizantes do Trump, especialmente a classe operária, gostou e apoiou seu raciocínio. Essa proposta, junto com a crescente invasão de produtos chineses, os prejuízos financeiros e o desemprego das indústrias que estavam perdendo para tais importações, gerou o apoio clamoroso dos eleitores de Trump, do bible belt e dos blue-collar workers.

A primeira decisão baseada nessa lógica do presidente foi em março deste ano, ao sobretaxar as importações de aço e de alumínio. Apesar da necessidade de conceder isenções para certos países-fornecedores desses metais e das críticas e manifestações de diversos setores empresariais norte-americanos, Trump manteve sua decisão e deixou claro que continuará a implementar esses tipos de medidas para proteger as indústrias e os empregos de sua nação.

Do ponto de vista de negócios, pode-se dizer que Trump esteja agindo com esperteza e forçando outros países a entrarem nas negociações com regras definidas por ele. Em uma negociação, estabelecer as regras pode fazer toda a diferença, como ensinam os cursos de negociação: se você não tem vantagem ou força em uma negociação, tente mudar as regras do jogo para que você venha a ter alguma vantagem. Esse é o trunfo de Trump. Ele tornou-se um hábil negociador devido à sua experiência profissional. Ele pode estar errando em outras áreas de sua administração do país, mas sua postura agressiva e desafiadora o tem colocado em posição vantajosa na esfera do comércio internacional.

A reação dos países tem sido de cautela, até mesmo os poderosos europeus e chineses, sendo que somente após a reunião do G7 tais países decidiram revidar com a mesma moeda de Trump. Após os EUA anunciarem que iriam impor tarifas de 25% sobre US$ 50 bilhões em bens importados da China, este último respondeu que faria a mesma coisa com as importações norte-americanas. A União Europeia também preparou uma lista de produtos tradicionais americanos que teriam os impostos de importação elevados. Seria o início de uma guerra comercial?

Veremos se outros países irão entrar na briga ou assistir da arquibancada. Muitos países conhecem a sensibilidade de posicionar-se contra os EUA, um país com tendências retaliatórias, assim como o risco político de não apoiar a China ou os europeus. Um agravante é o fato de essas três nações terem recursos e condições de aguentar tal briga por período razoável, reduzindo a urgência ou a necessidade de fazerem as pazes. Uma coisa é certa: essa guerra irá prejudicar a economia global.

O maior ganho para Trump e os Estados Unidos seria a renegociação das regras dos acordos comerciais, tanto os acordos bilaterais, quanto o NAFTA e o GATT/OMC. O enigma é saber como seriam essas novas regras que visam favorecer os Estados Unidos. Especialistas acreditam que a forte dependência pelo mercado dos EUA fará com que o México, o Canadá e outros parceiros comerciais venham a ceder ao governo Trump. Na OMC, no entanto, a negociação seria mais complexa, pois exige a concordância dos 164 países-membros.

Portanto, seria um equívoco achar que Trump tenha operado somente com improviso. Do ponto de vista comercial e das regras multilaterais do comércio, Trump está desafiando o status quo, impondo suas demandas e negociando com perspicácia. Seus eleitores assistem em admiração enquanto ele discursa que está contendo a invasão chinesa, desafiando a globalização, gerando empregos e protegendo o "American way of life".

Data de publicação: 26/06/2018

Autor: SAULO PIO LEMOS NOGUEIRA
Mestre em Diplomacia Comercial (Middlebury Institute), mestrando em Relações Internacionais (USP), especialista em barreiras comerciais e sócio da Acesso Internacional.

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